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Mover-se em memórias corporais

Valmir Santos reflete sobre espetáculos da primeira semana do "Conexões Norte Sul", que exploram movimento, memória e corpo na cena do teatro e da dança

Publicado em 01/04/2025

Atualizado às 12:03 de 01/04/2025

Por Valmir Santos

“A gente é feito roda, sanfoneiro, só se equilibra em movimento” Quando o dono da trupe e cafetão Lorde Cigano fala ao sanfoneiro Ciço, na parte final do filme Bye bye, Brasil (1979), de Cacá Diegues, a Caravana Rolidei já havia trocado de caminhão e adotado a grafia Rolidey, agora em letreiro luminoso. No roteiro, seus artistas ambulantes rumam de Brasília para Rondônia, na tentativa de desviar da modernidade da televisão que tomava de assalto os lares urbanos do país. Levemente adaptada, a frase é citada no espetáculo teatral Meu amigo inglês (2022), do diretor e dramaturgo Mário Zumba, uma produção do Grupo O Imaginário, em atividade desde 2005 em Porto Velho.

O jogo entre equilíbrio e movimento transpõe-se para uma cena de rememorações interpretada por um casal de personagens palhaços, permitindo, assim, estabelecer pontes com mais dois trabalhos presentes na primeira semana do Projeto Conexões Norte Sul, que aconteceu de 6 a 16 de março no Itaú Cultural (IC), na capital paulista. Afinal, mover-se também constitui sensações e sentimentos basilares na pesquisa e criação do espetáculo de dança Novos velhos corpos 50+, de Porto Alegre, coreografado e encenado por seis artistas, tanto como na concepção do solo ao ar livre Ensaio geral, de Porto Velho.

São três criações que convidam o público a tocar a tapeçaria forjada em cada obra com seus desígnios, seus avessos e, por vezes, suas contradições. Os pressupostos da história de Meu amigo inglês são promissores. Um palhaço veterano, Theodoro, interpretado por Chicão Santos, foi diagnosticado com doença de Parkinson há cerca de 15 anos, mesmo período em que se enamorou por Madalena, interpretada por Flávia Diniz, que seguiu os passos dele com o circo. Enfim, como conciliar a realidade diante da degeneração do sistema nervoso? E a disciplina dos remédios, inclusive antidepressivos, perante a vocação irradiadora da alegria como ofício abraçado há décadas?

Na imagem um homem de camiseta rosa está sentando e gesticula suas mãos
Peça de teatro "Meu amigo Inglês" (imagem: divulgação)

O espetáculo aborda os distúrbios neurológicos mantendo a humanidade de Theodoro. Há contornos poéticos em assumir silêncios introspectivos cortados pelo ranger de um banquinho de madeira dobrável. Ou ao posicionar a atriz de costas para a plateia por minutos, ela ao fundo e o ator em primeiro plano, compondo uma sobreposição visual intimista.

No cenário minimalista, um tapete retangular delineia, ao mesmo tempo, o picadeiro e o trailer, casa sob rodas do casal, em meio a poucos objetos. Mas a encenação de Zumba não consegue instaurar uma síntese equivalente. A porosidade do espaço cênico exíguo seria muito bem-vinda também à presença de Santos e Diniz, de desenhos mais estanques. Quando o protagonista pergunta “Um palhaço decrépito, como é que funciona?”, ele o faz sem brecha para a comicidade que a sentença sugere.

Meu amigo inglês chega a esboçar um lirismo circense a partir das entrelinhas fellinianas do texto. Sobressai, no entanto, o drama existencial, a voz dominantemente melancólica do palhaço que, aos poucos, redesenha o destino vislumbrado para si. Um estado demasiadamente humano. Mas como levá-lo à cena com nuanças?

Entre idas e vindas temporais e espaciais, rememora-se a celebração do primeiro ano de casamento, o surgimento de sintomas como tremores e a participação da dupla no Grande Circo Irmãos Totó. Ali, muito brevemente, as vibrações vocais, gestuais e coloridas dos números representados pelo casal saltam à vista ao contrastar com a solaridade.

Vale pontuar também o modo patriarcal como Meu amigo inglês retrata a relação entre o velho palhaço e a jovem palhaça – a diferença de idade em cena é expressiva –, as variações dela, que alterna entre aprendiz de ofício, esposa e cuidadora. Ainda que Madalena reivindique a mesma condição de palhaça e declare não querer apenas pajear o marido, há situações, posturas e vocalizações que reforçam níveis de subalternidade, diminuindo o poder de refutação dela nos diálogos.

Antietarismo

Os graus de intimidade soam artisticamente ainda mais explícitos em Novos velhos corpos 50+, em que seis bailarinas e bailarinos, também longevos enquanto coreógrafas e coreógrafos, rompem estereótipos e preconceitos dentro do próprio campo de trabalho, bem como os entranhados na sociedade de consumo.

Decana entre seis pares em cena, a artista, professora e pesquisadora Eva Schul, de 77 anos, lembrou que, até poucas décadas atrás, “bailarino de 30 anos era velho”. No diálogo com o público após a primeira noite de apresentação, ela, com 61 anos de prática e pedagogia em torno da dança, declarou-se orgulhosa por se “permitir estar, ter esse prazer em cena”.

Não há resquício de condescendências na autodeclarada “coreografia-manifesto” encenada por Eduardo Severino, Mônica Dantas, Robson Duarte, Rossana Scorza, Suzi Weber e Schul. Com idades entre 50, 60 e 70 anos, o conjunto mostra que as correlações de força tempo-espaço no corpo e no palco ganham outras cadências. Como Scorza não pôde viajar em família por razões de saúde, as outras cinco pessoas ressincronizaram dinâmicas, ao menos assim transpareceram desimpedidas de ansiedades.

No palco, diversos atores erguem um pano branco sobre as cabeças, vestem roupas verdes e vermelhas. A iluminação é azul.
Cena da peça "Novos velhos corpos 50+" (imagem: Adriana Marchiori)

Por intermédio dessa bagagem, o coletivo joga a favor da descoberta de novos encaixes, requebros e despertares musculares, de maneira a imprimir voluptuosidade raramente presumida em corpos envelhecidos. Vocabulário e linguagem gestual adquirem malemolências outras, amplificadas pela música ao vivo dos instrumentistas Dora Avila, Flavio Flu, Marcelo Fornazier e Vasco Piva. Uma sonoridade dançada com a liberdade rítmica prima da fusão característica do jazz, dando ares de improviso.

Posto que ver e falar são outros verbos-sentidos, resultam notáveis as ocasiões em que a língua ou os olhos movimentam-se na escala da sintonia fina diante de espectadores fisgados feito zoom pelo território da face de quem dança.

O recuso audiovisual, por sua vez, dá a impressão de que excede em determinados instantes. Como quando o total de atuantes está no palco e cada um tem sua imagem no respectivo quadradinho projetado simultaneamente na tela. A mixagem redunda a epidemia das telas e teclas.

Sob direção geral de Suzi Weber e direção cênica de Cláudia Sachs e Lisandro Belloto, Novos velhos corpos 50+ (2022) perfaz um caminho singular a partir dos afetos, processos criativos e posicionamento político que entrelaçam as existências de seus integrantes, algumas amizades com mais de 40 anos. Ciente da condição da velhice e seus limites, a performance apropria-se deles e ombreia o vigor de projetos artísticos testemunhados em palcos brasileiros, a exemplo de Kazuo Ohno, Angel Vianna, Renée Gumiel, Dorothy Lenner e a trupe atuante em Corpos velhos – para que servem? (2023), com Célia Gouvêa, Décio Otero, Iracity Cardoso, Lumena Macedo, Marika Gidali, Mônica Mion, Neyde Rossi e Yoko Okada, em iniciativa idealizada e dirigida pelo bailarino e coreógrafo Luis Arrieta, também em cena.

Desafios da interação

Espetáculos levados a espaços como ruas e praças têm, por natureza, o pressuposto da comunicação direta com a audiência em 360 graus. Artistas adeptos desse modo de pesquisar, criar e produzir em artes cênicas orientam-se por essa disponibilidade atávica. Em Ensaio geral, o ator Klindson Cruz atua como o Palhaço Pingo e narra ao público de todas as idades uma história em que põe à vista os bastidores da arte de representar.

A metalinguagem é uma proposição das mais inventivas e, no caso, requer níveis de atenção que, durante a primeira tarde de apresentação no Bulevar do Rádio, entre o Sesc Avenida Paulista e o Itaú Cultural, o artista demonstrou que ainda carece azeitar seus dispositivos de trocas segundo o próprio roteiro prevê e o desfecho nem sempre complementa. Sabe-se que interação e frustração rimam como uma constante no teatro de rua ou no circo, justamente por estimular identificações e riso.

Na imagem um homem está vetsido com um macacão, regata branca e um nariz de palhaço.
Cena da peça de teatro " Ensaio Geral" (imagem: divulgação)

Para começar, Cruz já surge em cena como ele mesmo, preparando o terreno para a plateia que vai se formando sentada em semiarena. Ele diz que aguarda a chegada da diretora da peça para iniciar a sessão. Por meio de um telefone de brincadeira, duas latas unidas por barbante, simula conversar com ela e, como atrasará, decide iniciar a apresentação.

Desponta então o Palhaço Pingo, em trajes de marinheiro, a contar a história de um barquinho, de nome Pingo 1º, que aprendeu a velejar sem saber para onde. O espetáculo é feito dos encontros da figura da embarcação com outros seres animados, como uma flor, um redemoinho, uma aranha e o mar – que ganham vida com a participação de crianças e adultos.

É nesse ponto que o trabalho de Cruz/Pingo mostra a necessidade de ancorar estratégias mais fluidas e sutis. O artista mais dirige espectadores em potencial do que convida as pessoas a contracenar. A falta de abertura ficou evidente ao chamar um espectador adulto, pessoa surda, bem-humorada, com a qual tinha a chance de interagir de maneira extraordinária – a intérprete de Libras aproximou-se disposta a jogar com a mesma energia –, porém recuou diante das primeiras e naturais dificuldades de compreender seu interlocutor, de quem queria saber se já fora assaltado nas ruas da cidade, e preferiu pedir que retornasse ao seu lugar.

Nascido em Manaus e atualmente professor universitário em Porto Velho, Klindson Cruz é dirigido pelo ator paraense Jean Palladino, palhaço Caco, que contribuiu para sua iniciação na arte da palhaçaria há oito anos, ao lado da atriz Selma Bustamante, a palhaça Kandura. Ela é a diretora imaginária com quem Pingo conversa pelo “latafone” em Ensaio geral. Bustamante, de fato, iria dirigir o espetáculo, mas morreu em 2019. A artista fez parte do Grupo Teatro Ventoforte, em São Paulo, nas décadas de 1980 e 1990, tendo o ator, diretor e dramaturgo Ilo Krugli como norte. Paulista, viveu mais de 20 anos em Manaus. Familiares dela assistiram ao espetáculo no Bulevar do Rádio.

*Texto escrito como uma das ações do Projeto Conexões Norte Sul, a convite de Itaú Cultural e do Sesc-RS.

Valmir Santos é jornalista, crítico e editor do site Teatrojornal – Leituras de Cena (www.teatrojornal.com.br)

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