Kil Abreu aborda o “Conexões Norte Sul”, projeto que apresentou as potências e os desafios da cena cultural brasileira, unindo linguagens dos extremos do país
Publicado em 15/04/2025
Atualizado às 11:20 de 15/04/2025
por Kil Abreu
Conexões Norte Sul é um projeto que aconteceu entre 6 e 16 de março, no Itaú Cultural (IC) e em seu entorno, em São Paulo, reunindo espetáculos de dança, teatro, circo e suas variações de linguagem. Foram montagens vindas dos extremos do país: as cidades de Porto Velho (RO) e Porto Alegre (RS), dois portos banhados por rios que demarcam, a um só tempo, o fenômeno geográfico e sua tradução simbólica na sociabilidade.
Na mostra, vimos agrupamentos de artistas que entre si se descobriram, paradoxalmente, tão longe e tão perto. Separados por milhares de quilômetros, costumes e práticas culturais, mas, ao mesmo tempo, irmanados em condições de produção e criação não tão remotas – às vezes até mesmo quase igualados nos impasses da sobrevivência. Nesse sentido, o projeto foi um retrato vivo das diferenças singulares, mas também das fundas correspondências no quadro das assimetrias que, enfim, erguem historicamente a grande crônica das gentes do Brasil.
Dos resultados estéticos às discussões sobre sustentabilidade artística e da fatura poética ao debate sobre condições de produção – em generosa medida, foi isso o que pudemos ver e viver nos dez dias do encontro promovido pelo IC e pelo Sesc Rio Grande do Sul.
Construções teatrais e prospecções políticas às margens do Madeira
O Rio Madeira, um dos braços direitos do Amazonas, é um rio-dádiva em uma região milagrosa e, como sabemos, intensamente sacrificada. Nossos amigos e amigas artistas de Porto Velho, cidade banhada por ele, o sabem. Direta ou indiretamente, trouxeram para o Conexões narrativas objetivas ou alegóricas a respeito da vida por lá.
O espetáculo Cabeça de Tereza talvez seja, entre as cenas de Rondônia, a mais enraizada no lugar, sem perder de vista o olhar político para a conjuntura geral do país. É uma narrativa que, ao imaginar um futuro nada alentador, apresenta simbolicamente a atitude que o corrige. A montagem, dirigida por Luiz Lerro e atuada por Jam Soares, é um patchwork de temas amarrados em um mínimo fio fabular, em que se faz a liga dos dramas locais com os chamados de diversas militâncias sociais no Brasil de hoje.
A sobrevivência das culturas amazônicas tradicionais e de suas visões de mundo, o racismo, o sexismo e a vigilância de um imaginado Estado ultraconservador são assuntos para a dramaturgia. Pela variedade de temas, também por escolha deliberada, é um texto sem muitas verticalizações ou dialética. Apoia-se mais francamente na apresentação das demandas e na defesa imediata de posições razoavelmente já compartilhadas do que na proposta de discuti-las. Nesse sentido, é um trabalho militante. Essa é a sua qualidade e o seu limite. Destaca-se a presença bem afirmada de Jam Soares, jovem atriz que está entre aquelas artistas sempre inteiras e compromissadas com as questões que representa.
A linguagem circense e, especialmente, do clown rege Ensaio geral, espetáculo de Klindson Cruz, o palhaço Pingo. Em uma cena de metateatro, ele convidou a plateia do aconchegante bulevar entre o IC e o Sesc Avenida Paulista para os preparativos do anunciado ensaio. É véspera da estreia e, por algum motivo, a diretora não chegou. Diante da ausência mais que presente, Pingo desenvolve a história de um barco e seu aprendizado de sobrevivência.
O bonito paralelo e o bom mote dramatúrgico seguem em uma aventura cênica na qual o esforço para cativar o riso se sustenta apenas acidentalmente, tal qual o barquinho à deriva narrado na fábula. Em que pese a entrega do ator às situações criadas, a montagem parece sabotar-se docemente, por exemplo, quando o palhaço, bem ao estilo carcamano, perde raras oportunidades de estabelecer empatia mais funda com a plateia, sobretudo com os escolhidos e as escolhidas para dividir o palco.
A parte mais bonita fica por conta do contraste entre os imaginários ribeirinho e urbano. Se soubermos olhar direito, poderemos embarcar nesta proposição do poeta paraense Rui Barata: “Olhem aqui, esse rio é minha rua” – ao que, nas circunstâncias, Klindson dirá, entre as gags cavadas no cimento daquele pequeno recuo que escapa da Paulista: “Olhem aqui, essa rua é meu rio”.
Já em Meu amigo inglês, o grupo O Imaginário toma novos rumos em uma trajetória de muitos anos, demarcada por espetáculos que remontam à paisagem humana da região, às suas questões sociais e existenciais. Dessa leva faz parte, por exemplo, Filhas da mata. Na montagem atual, o tema tem apelo mais geral: o mal de Parkinson, dramaturgizado e encenado por Mário Zumba, artista falecido recentemente.
Em cena, Chicão Santos e Flávia Diniz vivem um casal de circenses em paulatina negociação com a doença. Ainda que o mundo do circo seja apontado na montagem, ele aparece mais como referência do que como linguagem. Os diálogos descrevem, a seu modo, as agruras de artistas do picadeiro diante de um destino dramaticamente irônico, mas não chegam a incorporar – ao menos não decididamente – a materialidade da linguagem circense.
O resultado, deliberado ou não, tende ao patético, que não deixa de ser também teatral. Em outra seara, a virada de chave do grupo em direção a assuntos mais universais certamente ainda guarda espaço para retificações políticas importantes. Há de se avaliar, por exemplo, a representação da mulher, ao menos na forma como ela aparece na dramaturgia. Sobre isso, as próprias componentes do grupo estão atentas e fizeram apontamentos a respeito no debate que se seguiu à apresentação.
Dançares, imaginários e lutas às margens do Guaíba
O Guaíba é um corpo hídrico, um corpo-lago, um corpo-rio que banha generosa e, agora sabemos, também perigosamente, a cidade de Porto Alegre. De lá vieram três grupos de artistas, que trouxeram ao Conexões, nas bagagens dos seus próprios corpos, diversas miradas – sociais, temáticas e de linguagem – a respeito do espaço comum e seus impasses vivos nos dias que correm.
O lugar social e a condição de classe são uma chave sempre útil para entender as diferenças de um lugar, e isso se confirmou aqui. Primeiro, na dança: as portas da mostra foram abertas por um grupo de bailarinos e bailarinas, veteranos e veteranas, no espetáculo Novos velhos corpos 50+, com direção-geral de Suzi Weber e coreografia do próprio grupo. Através da montagem, vivemos um pouco, como espectadores, as contingências, mas também as descobertas sensíveis do envelhecer. Tudo pela via inusual do sentimento, digamos, direto que a dança nos oferece. Nesse aspecto, podemos dizer, talvez aventurosamente, que na forma do espetáculo o envelhecimento nos surge como mote, mas o seu verdadeiro tema de fundo é o desejo. Isso coincide com dois aspectos que nas apresentações vão nessa direção.
Primeiro, um aspecto de ordem formal. É um espetáculo sem dúvida jazzístico, embora não se confunda com a dança-jazz. É jazzístico nas suas gestualidades fluidas, interativas e, sobretudo, porque, assim como no jazz, a interação entre os músicos em cena e os bailarinos obedece a uma orientação parcialmente improvisada, buscante, vivente e, portanto, desejante.
O segundo aspecto que reforçou essa leitura é externo, único, acidental: depois da apresentação de abertura, uma espectadora, ela mesma já pessoa velha, fez a seguinte observação: “Vocês parecem crianças brincando”. Uma percepção fina que, salvo engano, captou o coração da montagem, não só porque costumamos dizer que os velhos voltam a ser crianças, mas, principalmente, porque a infância é precisamente o reino do desejo livre. O espetáculo gaúcho sintoniza esse canal de uma maneira muito viva.
Em outra frente, lá estava novamente a dança, ainda movida em chave performativa – aquela em que arte e vida se apresentam de mãos dadas –, mas já sob outras mobilizações em torno do real, especialmente no aspecto da origem social dos artistas. Os jovens bailarinos (ou dançarinos, como queiram) de Trivial, um espetáculo de b-boys (e, veremos, também de b-girls) apresentaram outro trabalho igualmente afirmativo, em que a força cênica, no entanto, se sustenta já sobre a laje das relações entre dança e condição de classe.
Dança urbana ou, simplesmente, dança, o espetáculo é daqueles em que o depoimento pessoal é indissociável da dramaturgia – a ponto de aquilo que no início é pura gestualidade explodir em verbo, do meio para o fim da representação. Que o verbo “venha” não é apenas um recurso estético, é uma funda necessidade. Assim como na cultura hip-hop, em que a cena também se inspira, a conjugação entre gesto, som e palavra se impõe para reforçar a posição dos que, nas franjas sociais, são constantemente silenciados e silenciadas. É uma criação poética e aeróbica. Senão, vejamos: como uma espécie de dança de guerra, garotos e garota intercalam, sob a direção coreográfica de Driko Oliveira, passagens que vão do gesto intenso à distensão lírica. Força e delicadeza em atuações que nos tomam não só pela contundência da performance física, como também pelo que nos dão a pensar.
Teatro dos seres imaginários fecha a participação dos porto-alegrenses na mostra, estendendo a audição para temas além do rio. Lida com uma imaginação, podemos dizer, alegórica e universal, e inspira-se em um quase vizinho, o gênio argentino Jorge Luis Borges, e em seu bestiário fantástico criado em meados de 1950 e ampliado nos anos seguintes, com a colaboração de Margarita Guerrero. A instalação apresentada pela trupe liderada por Cacá Sena aceita de pronto o jogo proposto por Borges e traduz o espírito da coisa fugindo das estruturas cênicas protocolares: a plateia é levada a uma engenhosa instalação em que, assim como um boneco de Borges que sai de dentro da sua própria cabeça, somos convidados a fruir aceitando uma, digamos, ordem própria, inusitada, da razão.
Com os pescoços embutidos em fendas, veremos surgir a zoologia surreal do escritor, seres estranhos animados com notável precisão técnica pelos manipuladores. Como no livro, não há uma linha narrativa, há essas aparições fantásticas. Em uma época na qual a vida tende a ser disciplinada por visões conservadoras e tacanhas, em que a capacidade humana de imaginar mundos anda sendo reduzida aos significados por vezes mesquinhos do literal, é um trabalho rico, tanto na solução técnica quanto na sua provocação subliminar de pensamento.
Pensares, impasses e respiros além dos portos
Não é possível apresentar aqui todos os pontos dos debates ricos que o projeto Conexões Norte Sul organizou sobre modos de produzir, curar e circular a partir desses extremos do território.
Quanto aos modelos e às circunstâncias de produção, curadorias e circulações, ressaltou-se o drama comum da cena brasileira: não só a insuficiência dos fomentos e a dificuldade de visibilização das produções locais, como também a ainda persistente desigualdade na aplicação dos recursos. Custo amazônico ao Norte, esvaziamento das políticas públicas ao Sul. E invisibilidades que ganham calibres diferenciados também quando se pensa em linguagens específicas. Nos relatos do pessoal da dança, por exemplo, parece que o esvaziamento tende a ser maior.
Mesmo diante desse quadro, do cansaço dos velhos artistas militantes, foi possível perceber o respiro e a força juvenil e afirmativa dos jovens artistas que estiveram nas plateias dos encontros e fizeram aqui e ali falas lindas, politizadas – não só esperançosas, mas já no movimento objetivo de construção das saídas. Imaginações.
E, assim, as seis montagens do projeto, apresentadas e conectadas, foram recosidas nas vozes dos artistas-trabalhadores e trabalhadoras, de maneira que, ao final, tivemos um painel complexo e instigante, resultado dessa costura coletiva envolvendo fios, tecidos e agulhas cerzidores de difíceis aporias, mas também de belezas insuspeitas.
Fim?
Que os exercícios de conexão não parem. Não para perseguir formas de unidade, e sim para projetar formas de mútuo reconhecimento das diferenças na diversidade. E, depois, não apenas para celebrar essas diferenças, como também para fazer delas motivos de engajamento rumo a condições justas de criação e produção. É uma tarefa para a qual, esperamos, devem confluir, como aqui, os esforços das instituições, de todo o teatro, de toda a dança, de toda arte humanista que vê a realidade como coisa mudável. Os esforços, enfim, de promover o direito à criação, à circulação e à fruição como direito de todos e de todas.