O desenho integra o projeto “Arte Urbana”, que convida artistas para intervir na fachada do IC
Publicado em 31/03/2025
Atualizado às 16:24 de 31/03/2025
Camila Gondo, artista nipo-brasileira, é a nova responsável por pintar a fachada do Itaú Cultural (IC). Com sua obra Entre dois mundos, ela transforma o espaço em um ponto de encontro entre Brasil e Japão, refletindo sua identidade como uma ponte entre essas duas culturas.
Em entrevista ao IC, ela falou sobre sua obra, seu processo criativo, sua trajetória e sua inspiração. Leia abaixo.
Como começou sua relação com a arte?
Desde criança, sempre gostei de desenhar. Para mim, o desenho surgiu como uma forma de expressão. Sou brasileira, nasci no Brasil, mas ainda muito pequena me mudei para o Japão. Lá, utilizava o desenho para me comunicar com as outras crianças, pois era a maneira mais acessível e natural de interação. Assim, a arte se tornou, para mim, um meio essencial de expressão e comunicação.
Como surgiu seu processo criativo?
Toda a minha relação com a arte vem desta busca pela minha identidade. Lá [no Japão], eu não era considerada japonesa; quando voltei para o Brasil, também não era vista como brasileira. Fiquei nesse limbo, me perguntando: onde é o meu lugar? A que cultura eu pertenço?
Com o tempo, percebi que não precisava escolher. Sou as duas coisas: brasileira, mas com minhas raízes japonesas, que fazem parte de mim e não podem ser separadas. Acho importante mostrar para as pessoas, para os brasileiros de forma geral, que também somos parte desta cultura, não só como nipo-brasileiros, mas como brasileiros por inteiro.
Fale um pouco sobre a obra que você criou para o banco do IC
Essa arte da fachada representa essa mistura da brasilidade. Há elementos de frutas brasileiras combinados com flores japonesas, e a figura feminina central simboliza a identidade da mulher nipo-brasileira.
Algo que sempre me incomodou foi o estereótipo da mulher asiática como submissa, discreta, sempre colocada nesse lugar por causa do patriarcado. Mas será que precisamos continuar reforçando essa visão? Será que não existem outras representações possíveis? Claro que existem! E minha intenção foi justamente trazer essa figura feminina para mostrar a diversidade de mulheres asiáticas brasileiras que existem aqui, para além desse estereótipo.
No banco, também há um elemento importante: as ondas. Elas representam o mar e o movimento, uma referência aos meus avós, que vieram de navio para o Brasil. Mas, além disso, simbolizam transformação. Estamos sempre mudando, evoluindo, buscando novas coisas, novos caminhos, autoconhecimento.
Como você entende a importância de a arte ocupar esses espaços públicos?
Acho muito importante trazer essa parte da cultura japonesa e mostrar para as pessoas que existimos, que estamos aqui, fazemos parte deste país. É engraçado, porque muitas vezes as pessoas me perguntam: “Há quanto tempo você está aqui?”. Mas eu nasci aqui, cresci aqui. Sou brasileira, sou nipo-brasileira, e ocupar este espaço é muito significativo.
Estar na Avenida Paulista, um lugar por onde passa todo tipo de gente, de diferentes classes sociais, brasileiros e estrangeiros, dá ainda mais peso para essa conquista. Para mim, é uma honra, de verdade.